segunda-feira, 18 de maio de 2020

Caso Queiroz: Suspeita sobre 2018 explode como bomba-relógio em 2020

Foto: Mauro Pimentel / AFP (via Getty Images)
No livro “Sobre lutas e lágrimas -- uma biografia de 2018”, o jornalista e escritor Mário Magalhães vaticinou que o ano da eleição de Jair Bolsonaro estava longe de sedimentar as tramas e os traumas ocorridos ao longo daqueles 12 meses. Previa que as consequências dos fatos influenciariam decisivamente o país por tempo prorrogado. Por isso, tão cedo não iria terminar.
Não acabou.
As razões poderiam ser resumidas em um parágrafo do mesmo livro: “Quando mentira e verdade se confundem, não se reconhece nenhuma delas. O Brasil em transe relativizou até a verdade factual.”
Na mitologia que levou à ascensão de Bolsonaro, não por acaso chamado de “mito”, conta-se que ele correu sozinho, sem dinheiro, sem estrutura e sem as digitais da velha política até o topo do pódio presidencial. Era o primo pobre eleito por incomodar os grandalhões.
Não era.
O que o empresário Paulo Marinho detalhou, em entrevista à colunista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, é que um dos participantes da prova pode ter corrido sob efeito de doping. Enquanto operações policiais batiam às portas dos partidos que o capitão prometia varrer do país, seu estafe, segundo afirmou o ex-aliado, era avisado com antecedência que possíveis malfeitos dele estavam na mira e era melhor tomar providências.
Segundo Marinho, que na campanha transformou sua mansão, no Rio de Janeiro, em QG da campanha bolsonarista, entre o primeiro e o segundo turno das eleições de 2018 o então deputado estadual e hoje senador Flávio Bolsonaro foi avisado por um delegado da Polícia Federal que Fabrício Queiroz, velho amigo do clã e à época seu assessor, aparecia em uma investigação sobre um suposto esquema de rachadinha na Assembleia Legislativa fluminense.
O policial seria simpatizante da candidatura de Bolsonaro.
Além de uma investigação de praxe, por parte da PF, o relato já provoca estresse e uma guerra de versões no momento em que Bolsonaro, dois anos depois, é acusado de interferir no comando da corporação para preservar filhos e amigos de possíveis encrencas policiais. Em 2020, o ano da eleição mostra a cara em versão eterno retorno.
Paulo Marinho é velho conhecido de Brasília e seus habitantes.
Sua entrevista à Folha é um tiro de canhão no mito bolsonarista. Ele retrata o ex-aliado como um presidente sem capacidade de gerir um país em condições normais e “muito menos no meio de uma loucura como essa que nós estamos vivendo”.
Já durante a campanha, confidenciou Marinho, “a primeira coisa que percebi é que não se tratava de um mito”. “Eu olhava o capitão, com aquele jeito tosco dele, e algumas coisas me chamavam a atenção. Por exemplo: ele era incapaz de agradecer às pessoas. Chegava uma empregada minha, servia a ele um café, um assistente entregava um papel, e ele nunca dizia um abrigado”.
Mais: “as piadas eram sempre homofóbicas. Os asseclas riam, mas não tinha nenhuma graça. E, no final, ele realmente despreza o ser feminino. Tratava todas as mulheres como um ser inferior”.
Até aí, ninguém precisava abrir as portas para o então deputado do baixo clero para perceber.
O enrosco vem na sequência.
Marinho conta que Gustavo Bebianno, ex-ministro alvejado por Bolsonaro e que morreu de infarto no início do ano, tinha um telefone celular por meio do qual interagiu durante toda a campanha com o candidato. Era um “conteúdo imenso”, com “conversas íntimas que provavelmente deviam ter revelações interessantes”, segundo o testemunho. 
O celular ainda existe, garante Marinho. Está com uma pessoa nos EUA. Não deu mais detalhes, mas a pista foi jogada a quem interessar possa.
Quando perguntado sobre um possível interesse de Bolsonaro na Superintendência da PF do Rio, Marinho recordou um episódio, após as eleições, em que Flávio Bolsonaro, de quem é suplente no Senado, pediu indicações de um advogado. A Operação Furna da Onça já estava na rua e alcançado Fabrício Queiroz
Marinho conta ter recebido em casa o senador eleito e o advogado Victor Alves, funcionário de seu gabinete. Segundo o relato, ambos estavam impressionados com o que Queiroz havia feito. Flávio chegou a falar em quebra de confiança.
Queiroz era um ex-PM e motorista da família que movimentou uma quantia de dinheiro incompatível com seus vencimentos. Ele é suspeito de morder parte do salário dos funcionários de Flávio Bolsonaro, inclusive parentes de milicianos empregados no gabinete. O destino de um dos cheques movimentados por ele foi a primeira-dama, Michelle Bolsonaro.
com informações de yahoonotícias